Nem pensar - disse padre Dominic. - Padre - tentei argumentar. - Não vejo outra saída. Nós sabemos perfeitamente que ela não irá por vontade própria. E ela é perigosa demais para ficar por aí perambulando indefinidamente. Acho que vamos precisar dar um empurrão.
Padre Dominic tirou os olhos de mim e ficou com o olhar perdido num ponto do teto.
- Não é para isto que estamos aqui, pessoas como você e eu, Suzannah - disse ele com a voz mais triste que eu ja¬mais ouvira. - Nós somos as sentinelas dos portões do Além. Somos nós que ajudamos a guiar as almas perdidas para seu destino final. E não houve um só espírito ajudado por mim que não tivesse passado pelo portão por vontade própria...
Isso aí. E se a gente fechar os olhos na noite de Natal, Papai Noel vai aparecer. Devia ser muito bom, pensei, ver o mundo pelos olhos do padre Dom. Ficava parecendo um lugar muito legal. Muito melhor que o mundo no qual eu vivia há dezesseis anos.
Certo - disse eu. - Bom, não vejo outro jeito.
Um exorcismo - murmurou padre Dominic, pronunciando a palavra como se fosse algo nojento.
Ouça - prossegui, começando a me arrepender de ter dito alguma coisa. - Acredite, não é um método que eu recomendo sempre. Mas não acho que tenhamos muita es¬colha. A Heather já não é um perigo apenas para o Bryce. - Eu não queria contar-lhe o que ela havia dito sobre o David. Já podia até vê-lo saltando da cama e berrando por um par de muletas. Mas como eu já tinha deixado escapar o que estava planejando, precisava mostrar a ele por que considerava necessária uma medida tão extrema. - Ela é um perigo para o colégio todo e precisa ser contida - dis¬se então.
Ele assentiu com a cabeça.
- Sim, sim, você tem razão. Mas Suzannah, você tem de prometer que vai esperar que eu tenha alta. Conversei com a médica, e ela disse que pode me dar alta já na sexta-feira. Com isto, teremos tempo suficiente para pesquisar a metodologia apropriada... - ele deu uma olhada para a mesinha- de-cabeceira. - Quer me dar aquela Bíblia ali, Suzannah? Quem sabe não o encontramos aqui...
Eu lhe entreguei a Bíblia.
- Tenho plena convicção de que domino perfeitamente a coisa - disse eu.
Ele levantou os olhos e me fixou com aquele seu olharzinho triste de criança. Pena que já fosse tão velho, e ain¬da por cima padre. Fiquei me perguntando quantos corações ele não teria partido antes de encontrar sua vocação.
- E como é que você pode dominar perfeitamente uma coisa complicada como um exorcismo católico romano? - quis saber ele.
Eu me mexi, meio sem jeito.
Bem, eu não estava pretendendo usar exatamente a versão católica romana.
Existe alguma outra?
Mas claro! A maioria das religiões tem sua versão. Pessoalmente, prefiro a umbanda. É bem objetiva. Nada de sortilégios demorados ou coisas do gênero.
Ele parecia estar sofrendo:
Macumba?
Isso mesmo. É o vodu brasileiro. Eu descobri na Internet. Só precisamos de um pouco de sangue de galinha e...
Maria Santíssima, mãe de Deus! - interrompeu padre Dominic, levando algum tempo para se recuperar e prosse¬guir: - Fora de questão. Heather Chambers era uma católica batizada e, apesar da causa de sua morte, merece um exor¬cismo católico, se não um enterro católico. No momento ela não tem grandes chances de ir para o Céu, devo reconhecer, mas posso garantir que pretendo fazer tudo para que tenha a oportunidade de cumprimentar São Pedro no portão.
Padre Dom - eu disse. - Realmente não acho que faça a menor diferença se ela tiver um exorcismo católico, brasileiro, pigmeu ou o que seja. A dura realidade é que se hou¬ver um Céu, não existe a menor possibilidade de que Heather Chambers vá para lá.
Padre Dominic fez um muxoxo de desaprovação.
Suzannah, como pode dizer uma coisa dessas? Todo mundo tem alguma coisa de bom. Acho que até você é ca¬paz de ver isso.
Até eu? Como assim, até eu?
Estou querendo dizer que até Suzannah Simon, que pode ser muito dura com os outros, deve ser capaz de entender que até no ser humano mais cruel existe a flor do bem. Talvez um brotinho muito pequeno mesmo, carente de água e luz do sol, mas ainda assim uma flor.
Fiquei me perguntando que analgésicos estariam dando ao padre Dom. E disse:
- Tudo bem então, padre. Só sei que, aonde quer que a Heather vá, não será para o Céu. Se é que existe um Céu...
Ele sorriu para mim com tristeza.
- Eu gostaria apenas, Suzannah, que você tivesse em matéria de fé no Senhor metade do que tem de coragem - disse. - Ouça-me um instante. Você não pode, simplesmente não pode tentar deter a Heather sozinha. Ficou perfeitamente claro que ela quase a matou na noite passada. Eu não conseguia acreditar quando cheguei e vi os estragos que ela ti¬nha provocado. Você teve muita sorte de sair com vida. E pelo que aconteceu esta manhã também está claro, como você mesma diz, que ela está apenas acumulando forças.
Seria uma burrice, uma burrice criminosa, se você tentasse de novo fazer alguma coisa sozinha.
Eu sabia que ele tinha razão. Pior ainda, se eu levasse adiante aquela história de exorcismo, não poderia con¬tar com a ajuda do Jesse, pois o exorcismo poderia muito bem mandá-lo de volta para o criador, juntinho com a Heather.
- Além disso - prosseguiu padre Dominic -, não há qual¬quer motivo para se apressar, não é mesmo? Agora que ela já conseguiu mandar o Bryce para o hospital, não fará ne¬nhuma outra tolice, pelo menos até ele voltar para o colégio. Parece que ele é a única pessoa contra a qual ela alimen¬ta instintos assassinos...
Eu não disse nada. E como poderia? O pobre infeliz pare¬cia tão patético, deitado naquela cama... Eu não queria dar-lhe mais motivos de preocupação. Mas a verdade é que eu não poderia esperar que o padre Dom saísse do hospital. A Heather não estava brincando. A cada dia que passava, ela só ia ficando mais forte e mais perversa e mais cheia de ódio. Eu tinha de me livrar dela, e precisava ser logo.
De modo que cometi algo que deve ser um pecado mor¬tal. Menti para um padre.
Ainda bem que eu não sou católica.
- Não se preocupe, padre Dom - disse. - Vou esperar que o senhor se sinta melhor.
Mas o padre Dominic não era nenhum bobo.
Prometa-me, Suzannah - insistiu.
Prometo.
Claro que eu tinha cruzado os dedos. Eu esperava que, se existisse um deus, isto servisse para neutralizar o peca¬do de mentir para um dos seus mais devotados servidores.
- Deixe-me ver - murmurava padre Dominic. - Vamos precisar de água benta, naturalmente. Mas isto não é pro¬blema. E, naturalmente, de um crucifixo.
Enquanto ele matutava sobre os itens necessários, Adam e Cee Cee entraram no quarto.
- E aí, padre Dom? - foi dizendo o Adam. - O senhor está péssimo!
Cee Cee cutucou-o com o cotovelo.
- Adam - sussurrou ela, voltando-se com vivacidade para o padre. - Não dê bola para ele, padre Dom. Eu acho que o senhor parece ótimo. Parece mesmo, para quem quebrou um bocado de ossos...
Crianças! - fez padre Dominic, realmente contente por vê-los. - Mas que bom! Mas por que estão desperdiçando uma tarde bonita como esta para visitar um velho num hospital? Vocês deviam estar na praia curtindo o sol.
Na verdade estamos fazendo uma matéria sobre o acidente para as Notícias da Missão - informou Cee Cee. - Acabamos de entrevistar o monsenhor. É realmente uma pena essa história da visita do arcebispo e tudo mais, e a estátua do padre Serra sem cabeça...
Isso aí - fez o Adam. - Um horror mesmo.
Não faz mal - disse padre Dominic. - É o empenho e a preocupação de vocês que vão realmente impressionar o arcebispo.
- Amém - disse Adam, solene.
Antes que uma de nós duas tivesse tempo de ralhar com o Adam por causa do sarcasmo, uma enfermeira entrou e comunicou a Cee Cee e a mim que tínhamos de sair porque ela ia dar banho de esponja no padre Dom.
Banho de esponja! - espantou-se o Adam enquanto caminhávamos para o carro. - No padre Dom dão banho de esponja, mas e eu, que realmente saberia apreciar uma coisa dessas, que é que me dão?...
Uma oportunidade de servir de motorista para as duas garotas mais bonitas de Carmel - adiantou-se Cee Cee.
Tá bom - concordou Adam, voltando-se para mim: - Não que você não seja a garota mais bonita de Carmel, Suze... Eu só estava querendo dizer... Bem, você sabe...
Sei - disse eu, sorrindo.
Puxa vida, banho de esponja! E você viu só aquela en¬fermeira? - continuou Adam, empurrando o encosto do banco do carona para a Cee Cee se esgueirar para o assento de trás. - Alguma coisa deve ter nessa história de ser padre. Talvez eu devesse me candidatar.
Lá de trás, a Cee Cee respondeu:
- Ninguém se candidata. É uma vocação. E você não ia gostar nada, Adam, pode crer. Padres não podem jogar Nintendo.
Adam engoliu esta.
- Talvez eu pudesse fundar uma nova ordem - disse ele, concentrado. - Como os franciscanos, só que seríamos a Ordem dos Felizardos. Nosso lema seria "Nota dez para todos, pizza para todo mundo".
Cee Cee interrompeu:
- Cuidado com a gaivota!
Nós estávamos na Rodovia Litorânea de Carmel. Pouco depois da mureta de pedra a nossa direita estava o Oceano Pacífico, brilhando como uma jóia à luz da gigantesca bola de fogo amarela do sol. Provavelmente eu o devia estar con¬templando muito demoradamente (eu ainda não tinha me acostumado com sua presença constante), pois o Adam foi tratando de se enfiar com o carro numa vaga que acabava de ser deixada livre por um BMW. Eu fiquei olhando para ele interrogativamente, enquanto ele perguntava:
- Você ainda não conseguiu parar para ficar olhando o pôr-do-sol?
Saí do carro numa fração de segundo.
Pouco depois, estava me perguntando como é que nun¬ca tinha pensado antes em me mudar para a Califórnia. Sentada numa manta que o Adam tirou da mala do carro, observando os atletas correndo e os surfistas de fim de tarde, os cães correndo atrás de frisbees e os turistas com suas câmeras, estava me sentindo tão bem como não me sentia há muito tempo... Talvez fosse porque eu ainda estava num regime de dormir apenas quatro horas por noite. Talvez, simplesmente o cheiro da água do mar me estivesse deixan¬do meio embriagada. Mas o fato é que estava me sentindo realmente em paz, como se fosse pela primeira vez na vida.
O que não deixava de ser estranho, levando-se em con¬ta que dentro de poucas horas eu estaria em luta contra as forças do Mal.
Até que essa hora chegasse, no entanto, decidi que ia curtir a vida. Voltei o rosto para o sol que se punha, sentin¬do os seus raios quentes na bochecha, e fiquei ouvindo o barulho das ondas, os gritos das gaivotas e a conversa de Cee Cee com o Adam.
- Aí eu disse para ela, Claire, você já tem quase 40 anos. Se você e o Paul querem ter outro filho, é melhor andarem depressa. Vocês estão correndo contra o tempo - disse o Adam, bebendo um refrigerante que havia comprado numa lanchonete perto do lugar onde estacionamos. - Ela ficou dizendo que meu pai e ela não queriam que eu me sentisse ameaçado por um outro filho e eu respondi que não me sentia ameaçado por bebês. Sabe o que realmente me faz sentir ameaçado? Esses orangotangos que ficam tomando esteróides, do tipo Brad Ackerman, isto sim.
Cee Cee lançou um olhar de advertência para Adam e depois olhou para mim:
- E como você está se dando com seus meios-irmãos, Suze?
Eu desviei meu olhar do sol.
- Acho que bem - respondi. - Mas é verdade que o Dun... quer dizer, o Brad, toma esteróides?
O Adam respondeu:
- Eu não devia ter dito isto. Sinto muito. Tenho certeza de que ele não toma. Mas aqueles caras todos da equipe de luta-livre, eles realmente são de dar medo. E têm tanta rai¬va de gays... que dá para desconfiar de suas preferências sexuais. Eles todos pensam que eu sou gay, mas não sou exatamente eu que fico metido num colante agarrando as coxas de outros caras.
Eu senti vontade de pedir desculpas em nome do meu meio-irmão e foi o que fiz, acrescentando:
- Não estou tão certa assim de que ele seja gay. Outro dia ele ficou todo feliz quando a Kelly Prescott ligou para nos convidar para a festa em sua piscina no sábado.
Adam assobiou e de repente Cee Cee perguntou:
- Você não prefere algo melhor que esta manta? Quem sabe uma toalha de praia de caxemira?... É o tipo de toalha que a Kelly e o pessoal dela usam na praia.
Eu fiquei piscando, percebendo que acabava de cometer uma gafe.
Ué, eu não sabia... Pensei que a Kelly também tinha convidado vocês. Achei que ela ia convidar todos os segundanistas.
Com certeza que não - disse Cee Cee, fungando. - Só os segundanistas com status, o que não é caso do Adam nem o meu.
Mas você é a editora do jornal do colégio - ponderei.
Certo - respondeu o Adam. - Traduza isto como a mesma coisa que bosta, e vai entender por que nunca fomos convidados para uma festa na piscina da princesa Kelly.
Fiquei calada por um minuto, ouvindo as ondas. Mas acabei dizendo:
Não que eu estivesse pensando em ir...
Não mesmo? - e os olhos de Cee Cee se esbugalharam por trás dos óculos.
- Não. No início, porque eu tinha um encontro com o Bryce, que acabou sendo cancelado. Mas agora porque... bom, se vocês não forem, com quem eu vou conversar?
Cee Cee deitou-se na manta.
- Suze - disse ela. - Você alguma vez pensou em ser vice-presidente da turma?Eu achei graça.
Espera aí, eu sou a mais nova da turma, lembra?
Isso aí - fez o Adam. - Mas você leva jeito. Vi que você tem alguma coisa de líder na maneira como acabou com a raça da Debbie Mancuso ontem. Os homens sempre admiram as garotas que parecem capazes de dar um murro na cara de outra garota a qualquer momento. É mais forte que nós. Talvez seja genético - concluiu ele, dando de ombros.
Certamente vou levar isto em consideração - disse eu, rindo. - Cheguei a ouvir um boato de que a Kelly pretendia gastar todo o orçamento da turma numa festa...
Exatamente - confirmou Cee Cee. - Ela faz isto todo ano. É aquela baboseira da dança da primavera. Um saco. Pelo menos para quem não está de namorado, não serve para nada. Não dá para fazer mais nada, só dançar.
Espera aí - atalhou Adam. - Lembra aquela vez em que a gente levou balões de água?
Bom, naquele ano foi divertido - reconheceu Cee Cee.
Eu estava pensando - interferi - que talvez fosse me¬lhor uma coisa assim. Sabe como é. Um piquenique na praia. Talvez até dois...
- Isso mesmo! - exclamou o Adam. - Com fogueira! O meu lado piromaníaco sempre quis fazer uma fogueira na praia.
Cee Cee concordou:
- Exatamente! É exatamente o que a gente devia fazer. Suze, você tem de concorrer a vice-presidente!
Santa virgem, mas o que foi que eu fiz? Eu não queria ser vice-presidente da turma de segundo ano! Não queria me envolver com essas coisas! Eu não tinha o menor espí¬rito de comunidade, não tinha opinião sobre nada! Que diabos estava eu fazendo? Será que tinha perdido a cabeça?
- Olha lá! - disse Adam de repente, apontando para o sol. - Lá vai ele.
Enquanto ia desaparecendo no horizonte, a enorme bola alaranjada parecia estar mergulhando no mar. Não tinha nada respingando nem nenhuma fumaça, mas eu seria ca¬paz de jurar que tinha ouvido o sol atingindo a superfície da água.
Lá vai o sol - cantou Cee Cee suavemente.
Lá lá lá lá lá - continuou o Adam.
Lá vai o sol - prossegui.
Tudo bem, tenho de reconhecer que era meio infantil, ficar ali sentado cantando, enquanto o sol se punha. Mas também era divertido. Lá em Nova York, a gente costuma¬va ficar sentado no parque vendo os policiais à paisana prenderem traficantes de drogas. Mas não dava para compa¬rar com o prazer de cantar despreocupado na praia enquanto o sol se põe.
Alguma coisa estranha estava acontecendo. E eu não sabia direito o que era.
- Eu já sei. Tá legal - cantamos os três em uníssono.
Estranhamente, naquele exato momento, eu realmente acreditei que seria assim. Que estaria tudo bem.
E foi aí que me dei conta do que estava acontecendo.
Eu estava me integrando. Eu, Suzannah Simon, a media¬dora. Pela primeira vez na vida eu estava me integrando com alguma coisa.
E fiquei feliz. Realmente feliz. Naquele momento, eu real¬mente acreditava que tudo estaria bem.
Mal sabia eu!...
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A mediadora - "A terra das Sombras" - Capitulo 15
O almoço já tinha quase acabado quando eu finalmente consegui pegar o Adam de jeito. Eu tinha passado quase a aula inteira com a cara enfiada num computador na biblioteca. Ainda não tinha comido, mas a verdade é que não estava com a menor fome.
- Ei - chamei, sentando ao lado dele e cruzando as per¬nas de um jeito que minha saia preta subisse só um pouqui¬nho. - Você veio de carro para o colégio hoje de manhã?
Adam bateu no peito. Ele tinha começado a beliscar um salgadinho no exato momento em que eu me sentei. Quan¬do finalmente conseguiu que ele descesse, disse, todo orgu¬lhoso:
- Claro que vim. Agora que estou com a minha carteira, sou uma verdadeira máquina de dirigir. Você devia ter saído com a gente ontem à noite, Suze. Foi o máximo! Depois que a gente saiu do Café Clutch, fomos dar uma volta pela Avenida Dezessete. Você já fez isso alguma vez? Cara, com a lua que estava fazendo ontem à noite, o mar estava tão bonito...
- Será que você topava me levar a algum lugar depois das aulas?
Adam levantou-se de repente, assustando duas enormes gaivotas que estavam perto do banco onde ele se sentara ao lado de Cee Cee.
Está brincando? Aonde quer ir? É só dizer, Suze, e eu te levo. Las Vegas? Quer ir a Las Vegas? Nenhum proble¬ma. Eu tenho 16 anos, você tem 16 anos. Podemos nos casar lá com a maior facilidade. Meus pais deixam a gente morar com eles, sem problema. Algum problema em ficar no meu quarto? Juro que a partir de agora eu tomo cuida¬do com as coisas...
Adam - interferiu a Cee Cee. - Deixa de ser espaçoso. Duvido muito que ela queira casar com você.
Não acho uma boa idéia casar de novo antes de conse¬guir divórcio do meu primeiro marido - disse eu, com a cara mais séria. - O que eu estou querendo mesmo é ir ao hospital visitar o Bryce.
Os ombros do Adam caíram.
- Ah - fez ele, sem conseguir esconder o desânimo. - Só isso?
Aí eu saquei que tinha dito a coisa errada. Mas não dava para voltar atrás. Felizmente, a Cee Cee veio em meu so¬corro, dizendo, bem estudada:
- Sabe o que mais, uma matéria sobre o Bryce e o padre Dominic bravamente lutando para se recuperar dos ferimentos não seria uma má idéia para o jornal. Você se im¬porta se eu for com você, Suze?
- Claro que não - respondi, o que era, naturalmente, uma mentira. Com a Cee Cee do lado, seria difícil fazer tudo que eu tinha de fazer sem precisar explicar um monte de coisas...
Mas que escolha eu tinha? Nenhuma.
Como eu já tinha garantido a minha carona, comecei a procurar o Soneca. Encontrei-o cochilando e o cutuquei com a ponta da bota para acordá-lo. Quando ele começou a piscar para mim por trás dos óculos escuros, eu disse que não esperasse por mim depois das aulas, pois já tinha ar¬ranjado carona. Ele resmungou e voltou a dormir.
Dei um jeito então de achar uma cabine telefônica. É es¬tranho quando a gente não sabe o telefone de nossa própria mãe. Quer dizer, eu ainda sabia de cor o nosso número lá no Brooklin, mas não tinha a menor idéia de qual era meu novo número de telefone. Ainda bem que o havia anota¬do em minha caderneta. Fui até a letra S, de Simon, encon¬trei o número e disquei. Eu sabia que não tinha ninguém em casa, mas queria me garantir por todos os lados. Aí dei¬xei gravada na secretária eletrônica a mensagem de que talvez me atrasasse na volta do colégio, pois estava saindo com dois novos amigos. Eu tinha certeza de que a minha mãe ia adorar quando voltasse da estação e ouvisse aquela mensagem. Quando a gente ainda morava no Brooklin, ela estava sempre preocupada, achando que eu era anti-social. Estava sempre dizendo:
- Suzinha, você é uma moça tão bonita... Não entendo por que nenhum rapaz telefona para você. Quem sabe se você não parecesse tão... bem, tão durona?... Que tal deixar a jaqueta de couro descansar um pouco?
Ela provavelmente morreria de alegria se estivesse no estacionamento depois das aulas e ouvisse o Adam quan¬do eu me aproximei do seu carro.
- Olha só, Cee, aqui está ela - disse ele, abrindo a porta do carona do seu carro, que era simplesmente um New Beetle, o novo fusca (acho que os pais do Adam não estavam propriamente passando necessidade). - Venha, Suze, você vai sentar bem aqui ao meu lado.
Através dos meus óculos escuros - como sempre, a bru¬ma da manhã já se dissipara, e agora, às três da tarde, o sol estava castigando do alto de um céu de um azul perfeito -eu vi a Cee Cee esparramada no banco de trás.
Hmm, é mesmo? - disse. - Mas a Cee Cee chegou pri¬meiro. Eu fico lá atrás mesmo. Não dou a mínima.
Não quero nem saber - cortou o Adam, segurando a porta aberta para mim. - Você é que é a garota nova. A garo¬ta nova sempre senta no banco da frente.
Isso mesmo, até se recusar a dormir com ele - soltou a Cee Cee lá do fundo do banco de trás. - Aí também será relegada ao banco de trás.
Adam retrucou com voz cavernosa:
- Finja que não está ouvindo esta voz das profundezas. Eu sentei no banco da frente e Adam educadamente fe¬chou a porta para mim.
- Está falando sério? - perguntei a Cee Cee, virando-me para trás enquanto o Adam dava a volta no carro para entrar.
Cee Cee piscou por trás de suas lentes protetoras:
- Você acha realmente que alguém seria capaz de dormir com ele?
Tratei de processar a resposta.
Quer dizer então que a resposta é não - disse.
Acertou na mosca - respondeu a Cee Cee no exato mo¬mento em que o Adam entrava no carro.
Muito bem - disse o motorista, aquecendo os dedos antes de ligar a ignição. - Acho que essa história toda com a estátua, o padre Dom e o Bryce deixou todo mundo muito estressado. Meus pais têm uma jacuzzi, o que é perfeito para a tensão que todos nós sofremos hoje, e sugiro então que a gente passe primeiro lá em casa para um bom banho...
Sabe o que mais? - disse eu. - Vamos deixar a jacuzzi para outra vez e ir direto para o hospital. Talvez depois, se der tempo...
Uau! - fez o Adam, parecendo que estava nas nuvens. - Existe um deus lá no céu!
Lá do banco de trás, a Cee Cee cortou a animação dele:
- Ela disse talvez, seu otário. Minha nossa, tente se controlar.
Adam me deu uma olhada enquanto ia saindo da vaga:
Estou forçando a barra?
Hmm - disse eu. - Talvez...
O problema é que há muito tempo não aparecia uma garota nem de longe interessante por aqui. - Enquanto o Adam dizia isto, eu constatava algo aliviada que ele dirigia com muito cuidado. - Há dezesseis anos eu estou cercado de Kellys e Debbies. É um enorme alívio ter uma Suzannah Simon por perto para variar. Você simplesmente acabou com a Kelly hoje de manhã quando disse que anjos não deixam marcas de sangue.
Adam continuou com seu discurso até o hospital. Eu não entendia como a Cee Cee era capaz de agüentar aquilo. A menos que eu estivesse muito enganada, ela sentia por ele exatamente o mesmo que ele sentia por mim. Só que eu não achava que o interesse dele por mim era muito sério, pois se fosse ele não estaria brincando com o assunto. Já o interesse da Cee Cee por ele me parecia ser verdadeiro. Claro que ela o provocava e até o insultava, mas eu tinha olha¬do pelo espelho retrovisor umas duas vezes e vi que ela esta¬va olhando para ele de um jeito que só podia ser conside¬rado apatetado.
Mas só quando ela sabia que ele não estava olhando.
Quando o Adam parou em frente ao hospital de Carmel, eu pensei que ele tinha parado num clube ou numa casa particular por engano. Claro que seria uma casa daquelas muito grandes mesmo, mas lá na Califórnia não seria as¬sim nada de mais...
Foi então que eu vi uma discreta plaqueta com a inscri¬ção "Hospital". Saímos do carro e atravessamos um jardim impecável, com canteiros cheios de flores brotando. O lugar estava cheio de beija-flores e eu voltei a ver algumas daque¬las palmeiras que nunca esperara ver tão ao norte do Equador.
No balcão de informações, perguntei pelo quarto de Bryce Martinson. Eu não tinha certeza de que ele havia dado en¬trada, mas sabia por experiência própria, infelizmente, que, em caso de acidente com ferimentos de cabeça, geralmente a pessoa passa a noite no hospital para observação. E esta¬va certa. Bryce estava lá, assim como o padre Dominic, em quartos bem em frente um do outro.
Nós não éramos os únicos a estar visitando os dois, nem de longe. O quarto do Bryce estava cheio. Aparentemente não havia limite para o número de pessoas autorizadas a entrar num quarto de paciente, e parecia até que quase toda a classe dos veteranos da Academia Missionária Junipero Serra estava ali no quarto do Bryce. Bem no meio daquele quarto ensolarado e alegre, com flores por todo lado, o Bryce estava deitado com o ombro engessado e o braço direito pendurado acima da cabeça. Estava com aparência muito melhor do que de manhã, principalmente, suponho, porque o haviam enchido de analgésicos. Quando me viu na por¬ta, ele abriu aquele sorriso largo e disse, prolongando bem as sílabas:
Suze!
Puxa, e aí, Bryce? - disse eu, encabulada. Todo mundo tinha se voltado para ver com quem ele estava falando. Quase só havia garotas ali. E todas fizeram o que tantas garotas costumam fazer: me filmaram da cabeça aos pés (eu nem tinha tomado banho ao acordar porque estava tão atrasada, de modo que não estava exatamente com o cabelo em seus melhores dias...).
E todas deram aquele sorrisinho afetado.
Não de um jeito que o Bryce tivesse notado. Mas deram.
Mas ainda que não desse a menor bola para o que pudesse estar pensando de mim um bando de garotas que nunca tinha encontrado e provavelmente nunca voltaria a encon¬trar, eu fiquei vermelha.
Pessoal - disse o Bryce, parecendo meio alto, mas de um jeito simpático. - Esta é a Suze. Suze, é o meu pessoal.
Ah - respondi. - Tudo bom?
Uma das garotas, que estava sentada na beira da cama do Bryce num vestido de linho branco muito engomadinho, foi dizendo:
Ah, você é a garota que salvou a vida dele ontem. A meia-irmã do Jake.
Isso aí, eu mesma - disse. Não havia a menor, mas a menor possibilidade de que eu conseguisse perguntar ao Bryce o que precisava perguntar-lhe com todas aquelas pes¬soas ali no quarto. Cee Cee tinha empurrado o Adam para o quarto do padre Dom, para que eu pudesse ficar um pouco sozinha com o Bryce, mas parecia que não tinha adiantado nada. Não havia a menor possibilidade de eu conseguir ficar um minuto sozinha com o cara. A menos que...
A menos que eu pedisse.
- Bom - fui dizendo. - Preciso falar com o Bryce um instantinho. Será que vocês se importam?
A garota que estava na beira da cama foi apanhada de surpresa.
- Pode falar. Não somos nós que vamos impedir.
Eu a olhei bem nos olhos e disse, com minha voz mais firme de mediadora:
- Preciso falar com ele sozinha.
Alguém deu um assobio longo e profundo. Ninguém se mexeu. Até que o Bryce falou:
- Olha aí, rapaziada. Vocês ouviram o que ela disse. Po¬dem ir saindo.
Deus abençoe a morfina, é tudo que posso dizer.
A classe dos veteranos foi então saindo de má vontade, todo mundo me lançando olhares fulminantes. Bryce er¬gueu uma das mãos, que estava presa a alguma coisa, e disse:
- Vem cá, Suze. Dá uma olhada só nisso.
Eu me aproximei da cama. Agora que estávamos sozi¬nhos, dava para ver que o Bryce conseguira um quarto bem grande. Era também muito alegre, pintado de amarelo, com a janela dando para o jardim.
- Viu só o que eu consegui? - perguntou Bryce, mostrando-me um pequeno aparelho que cabia na palma da mão, com um botão no alto. - Uma bomba de analgésico só para mim. A qualquer momento que eu sentir dor, basta aper¬tar este botão e ela libera codeína direto no meu sangue. Legal, não?
O cara estava em outra. Estava mais que evidente. De re¬pente, eu me dei conta de que minha missão não seria as¬sim tão difícil, no fim das contas.
- Beleza, Bryce - respondi. - Fiquei mesmo muito chatea¬da quando soube do seu acidente.
Uau! - fez ele, com um risinho de satisfação. - Pena que você não estava lá. Talvez pudesse ter me salvado como da outra vez.
É - disse eu, pigarreando meio sem jeito. - Você parece que está atraindo acidentes ultimamente...
É mesmo - respondeu ele, fechando os olhos e deixando-me em pânico ante a idéia de que estivesse adorme¬cendo. Mas logo depois abriu os olhos e me olhou com ar meio triste. - Suze, acho que não vou conseguir, não.
Eu fiquei olhando para ele. Caramba, que bebezão!
- Claro que vai. Você só está com a clavícula quebrada, mais nada. Não demora nada e vai estar bom.
Ele deu um risinho:
Não, não... Estou dizendo que acho que não vou con¬seguir ir ao nosso encontro de sábado à noite.
Ah!... - disse eu, piscando. - Claro, claro que não. Nem eu estava mais pensando nisso. Preciso te pedir um favor, Bryce. Talvez você ache estranho... (na verdade, dopado do jeito que estava, duvido que achasse estranho) mas eu es¬tava aqui me perguntando se, quando você e a Heather ain¬ da namoravam, ela não... nunca lhe deu nada?
Ele ficou piscando para mim meio desorientado.
Nunca me deu nada? Você quer dizer um presente? - Sim.
Claro. Ela me deu um suéter de caxemira no Natal. Eu fiz que sim com a cabeça. Um suéter de caxemira não ia adiantar nada para mim.
-Tudo bem. Mais alguma coisa? Talvez... um retrato dela?
Ah, sim! - respondeu ele. - Claro, claro. Ela me deu seu retrato no colégio.
É mesmo? - fiz eu, tentando não parecer muito excitada. - E por acaso você está com ele aqui? Na sua carteira, talvez?
Era uma aposta arriscada, eu sabia perfeitamente, mas muitas pessoas só arrumam suas carteiras uma vez por ano, se tanto...
Ele fez uma careta. Provavelmente pensar era doloroso para ele, pois logo em seguida tratou de injetar o analgési¬co umas duas vezes. Em seguida, ficou com a expressão re¬laxada.
- Claro - disse então. - Ainda tenho a foto dela. Minha carteira está naquela gaveta ali.
Eu abri a gaveta da mesa ao lado de sua cama. E lá esta¬va realmente a carteira, fininha, de couro preto. Eu a apanhei e a abri. A foto da Heather estava entre um cartão American Express e um bilhete de teleférico de estação de esqui. Ela estava cheia de glamour, com toda aquela cabeleira loura caindo num dos ombros e olhando insinuante para a câ¬mera. Nas minhas fotos de colégio, eu sempre fico parecen¬do como se alguém tivesse gritado "Fogo!". Não conseguia entender como um cara que estava saindo com uma garo¬ta como aquela podia convidar para sair alguém como eu.
- Você me empresta este retrato? - perguntei. - Preciso dele só por um tempinho. Devolvo logo. - O que era uma mentira, mas achei que de outro modo ele não me empres¬taria a foto.
Claro, claro - disse ele, sacudindo uma das mãos.
Obrigada.
Enfiei a foto na minha mochila no exato momento em que uma mulher alta, de seus 40 anos, foi entrando, cober¬ta de jóias e trazendo uma caixa de doces.
Bryce, querido - disse ela. - Onde estão seus amiguinhos? Eu fui até a padaria para trazer uns beliscos.
Daqui a pouco eles voltam, mãe - respondeu o Bryce meio sonolento. - Esta é a Suze. Ela salvou a minha vida ontem.
A Sra. Martinson estendeu a mão direita, macia e bron¬zeada.
- Prazer em conhecê-la, Susan - disse ela, mal tocando os meus dedos. - Você consegue acreditar no que aconteceu com o pobrezinho do Bryce? O pai dele está furioso. Como se as coisas já não estivessem suficientemente com¬plicadas, com aquela maldita garota... bem, você sabe. E agora isto. Juro que fica parecendo que aquele colégio está amaldiçoado ou algo assim.
Eu disse:
- É. Bem, prazer em conhecê-la. É melhor eu ir.
E ninguém protestou contra minha partida: a Sra. Martin¬son porque pouco estava ligando, e o Bryce porque tinha adormecido.
Encontrei Adam e Cee Cee em frente a um quarto do outro lado do corredor. Enquanto eu estava me aproximan¬do deles, Cee Cee levou um dedo aos lábios:
- Ouça - disse ela.
Eu fiz exatamente o que ela sugeria.
Simplesmente não podia ter acontecido em pior hora - dizia uma voz conhecida, de homem mais velho. - E ago¬ra que faltam menos de duas semanas para a visita do arce¬bispo?...
Sinto muito, Constantine - dizia o padre Dominic com a voz fraca. - Sei perfeitamente que isto deve estar sendo estressante para você.
E ainda por cima com o Bryce Martinson! Sabe quem é o pai dele? Simplesmente um dos melhores advogados de Salinas!
Padre Dom está levando um sabão - sussurrou o Adam para mim. - Pobre coitado.
Ele bem que podia simplesmente dizer a monsenhor Constantine que fosse se afogar no lago - disse Cee Cee com os olhos faiscando.
Eu sussurrei:
- Vamos ver se a gente consegue ajudá-lo. Talvez vocês pudessem distrair o monsenhor. E aí eu vou ver se o padre Dom precisa de alguma coisa. Sabe como é, Bem depressinha antes da gente ir embora.
Cee Cee deu de ombros:
Por mim tudo bem.
Estou nessa - concordou Adam.
Eu então chamei o padre Dominic em voz alta e fui en¬trando no quarto.
O quarto não era tão grande nem tão alegre quanto o do Bryce. As paredes eram bege, e não amarelo, e só havia um vaso de flores. Pelo que pude perceber, a janela dava para o estacionamento. E ninguém se tinha dado ao traba¬lho de pendurar o padre Dominic em alguma máquina de bombear analgésicos. Não sei que tipo de plano de saúde os padres têm, mas posso dizer que não eram tão bons quanto deveriam.
Seria pouco dizer que o padre Dominic ficou surpreso com a minha entrada. Seu queixo simplesmente caiu. Ele não parecia capaz de dizer coisa nenhuma. Mas não tinha problema, pois atrás de mim foi entrando a Cee Cee, que foi explicando:
- Puxa, monsenhor, estávamos procurando o senhor em toda parte. Gostaríamos de fazer uma entrevista exclusiva, se o senhor concordar, sobre as conseqüências do ato de vandalismo da noite passada na visita que o arcebispo está para fazer. Conseqüências negativas, certo? O senhor tem algo a dizer? Talvez o senhor pudesse dar uma chegadinha até o corredor, onde eu e meu colaborador poderemos...
Meio atarantado, monsenhor Constantine acompanhou Cee Cee até a porta, bem irritado:
- Escute aqui, mocinha...
Eu mais que depressa fui chegando para o lado do padre Dominic. Não posso dizer que estava exatamente excitada por encontrá-lo. Quer dizer, eu sabia que ele provavelmente não estava lá muito satisfeito comigo. Foi em mim que a Heather atirou a cabeça do padre Serra, e eu achava que ele provavelmente sabia disto e muito provavelmente também não estava lá simpatizando demais comigo.
Pelo menos era o que eu estava pensando. Mas é claro que estava errada. Eu sou muito boa para ficar imaginan¬do o que as pessoas mortas estão pensando, mas ainda não consegui acertar muito com os vivos.
- Suzannah - disse padre Dominic com sua voz meiga.
- Que está fazendo aqui? Está tudo bem? Eu estava muito preocupado com você...
Provavelmente eu deveria ter esperado... Padre Dominic não estava zangado comigo, absolutamente. Só estava preo¬cupado. Mas era ele o verdadeiro motivo de preocupação. Além daquele horrível rasgão acima de um dos olhos, ele estava completamente lívido. Ou melhor, cinzento, pare¬cendo muito mais velho do que era. Só os olhos, azuis como o céu lá fora, continuavam como sempre foram, brilhantes e cheios de bom humor inteligente.
Ainda assim, fiquei de novo furiosa por vê-lo daquela ma¬neira. Heather ainda não sabia, mas ia se ver comigo, e como!
- Preocupado comigo? - perguntei, olhando fixo para ele. - Por que está preocupado comigo? Não fui eu que quase fui esmagada hoje de manhã por um crucifixo.
Padre Dom sorriu, matreiro.
Não, mas acho que você talvez precise explicar uma coisa. Por que não me disse, Suzannah? Por que não me disse o que pretendia fazer? Se eu soubesse que você estava pretendendo aparecer na Missão sozinha no meio da noite, nunca teria permitido.
Foi exatamente por isto que eu não lhe disse - respondi.
- Ouça, padre, sinto muito pela estátua e pela porta da sala de aula do professor Walden e tudo mais. Mas eu precisa¬va tentar falar com ela pessoalmente, entende? De mulher para mulher. Eu não sabia que ela ia ficar completamente ensandecida comigo.
Mas o que você podia esperar? Suzannah, você não viu o que ela tentou fazer com aquele rapaz ontem?...
Sim, mas aquilo dava para entender. Quer dizer, ela gostava muito dele. Ela realmente o ama loucamente. Mas eu não imaginava que fosse me perseguir também. Afinal, eu não tinha nada a ver com aquela história. Só estava tentando mostrar a ela o que ela podia fazer...
O que era exatamente o que eu vinha fazendo desde que ela começou a assombrar a Missão.
Certo. Mas a Heather não está a fim de aceitar nada que lhe propomos. É como estou lhe dizendo, a guria pirou. Agora está quietinha porque acha que conseguiu matar o Bryce e provavelmente também está exausta, mas daqui a pouco vai começar a atacar de novo, e só Deus sabe o que poderá fazer agora que sabe do que é capaz.
Padre Dominic ficou me olhando com curiosidade, com¬pletamente esquecido da sua preocupação com a chegada do arcebispo.
Como assim, "agora que sabe do que é capaz"?
Bom, dá para perceber que a noite passada foi apenas um ensaio geral. Pode estar certo de que muito pior virá da Heather, agora que ela sabe o que pode fazer.
Padre Dominic balançou a cabeça, confuso.
- Você a viu hoje? Como sabe tudo isto?
Eu não podia falar sobre o Jesse para o padre Dominic. Não podia mesmo. Não era da conta dele, para começo de conversa. Mas eu também tinha a impressão de que pode¬ria chocá-lo, saber que havia um sujeito vivendo no meu quarto. Sabe como é, padre Dom era um padre, essas coisas...
- Escute só - eu disse. - Tenho pensado muito nisso, e não vejo outra maneira. O senhor já tentou argumentar com ela e eu também. E veja só no que deu. O senhor está no hospital e eu preciso ficar o tempo todo olhando ao meu redor, onde quer que vá. Acho que chegou a hora de resol¬ver isto de uma vez por todas.
Padre Dom piscou: - O que está querendo dizer, Suzannah? De que está falando?
Respirei fundo.
- Estou falando do que nós, mediadores, fazemos como último recurso.
Ele ainda parecia confuso.
Último recurso? Acho que não estou entendendo o que você quer dizer...
Fazer um exorcismo - disse eu.
- Ei - chamei, sentando ao lado dele e cruzando as per¬nas de um jeito que minha saia preta subisse só um pouqui¬nho. - Você veio de carro para o colégio hoje de manhã?
Adam bateu no peito. Ele tinha começado a beliscar um salgadinho no exato momento em que eu me sentei. Quan¬do finalmente conseguiu que ele descesse, disse, todo orgu¬lhoso:
- Claro que vim. Agora que estou com a minha carteira, sou uma verdadeira máquina de dirigir. Você devia ter saído com a gente ontem à noite, Suze. Foi o máximo! Depois que a gente saiu do Café Clutch, fomos dar uma volta pela Avenida Dezessete. Você já fez isso alguma vez? Cara, com a lua que estava fazendo ontem à noite, o mar estava tão bonito...
- Será que você topava me levar a algum lugar depois das aulas?
Adam levantou-se de repente, assustando duas enormes gaivotas que estavam perto do banco onde ele se sentara ao lado de Cee Cee.
Está brincando? Aonde quer ir? É só dizer, Suze, e eu te levo. Las Vegas? Quer ir a Las Vegas? Nenhum proble¬ma. Eu tenho 16 anos, você tem 16 anos. Podemos nos casar lá com a maior facilidade. Meus pais deixam a gente morar com eles, sem problema. Algum problema em ficar no meu quarto? Juro que a partir de agora eu tomo cuida¬do com as coisas...
Adam - interferiu a Cee Cee. - Deixa de ser espaçoso. Duvido muito que ela queira casar com você.
Não acho uma boa idéia casar de novo antes de conse¬guir divórcio do meu primeiro marido - disse eu, com a cara mais séria. - O que eu estou querendo mesmo é ir ao hospital visitar o Bryce.
Os ombros do Adam caíram.
- Ah - fez ele, sem conseguir esconder o desânimo. - Só isso?
Aí eu saquei que tinha dito a coisa errada. Mas não dava para voltar atrás. Felizmente, a Cee Cee veio em meu so¬corro, dizendo, bem estudada:
- Sabe o que mais, uma matéria sobre o Bryce e o padre Dominic bravamente lutando para se recuperar dos ferimentos não seria uma má idéia para o jornal. Você se im¬porta se eu for com você, Suze?
- Claro que não - respondi, o que era, naturalmente, uma mentira. Com a Cee Cee do lado, seria difícil fazer tudo que eu tinha de fazer sem precisar explicar um monte de coisas...
Mas que escolha eu tinha? Nenhuma.
Como eu já tinha garantido a minha carona, comecei a procurar o Soneca. Encontrei-o cochilando e o cutuquei com a ponta da bota para acordá-lo. Quando ele começou a piscar para mim por trás dos óculos escuros, eu disse que não esperasse por mim depois das aulas, pois já tinha ar¬ranjado carona. Ele resmungou e voltou a dormir.
Dei um jeito então de achar uma cabine telefônica. É es¬tranho quando a gente não sabe o telefone de nossa própria mãe. Quer dizer, eu ainda sabia de cor o nosso número lá no Brooklin, mas não tinha a menor idéia de qual era meu novo número de telefone. Ainda bem que o havia anota¬do em minha caderneta. Fui até a letra S, de Simon, encon¬trei o número e disquei. Eu sabia que não tinha ninguém em casa, mas queria me garantir por todos os lados. Aí dei¬xei gravada na secretária eletrônica a mensagem de que talvez me atrasasse na volta do colégio, pois estava saindo com dois novos amigos. Eu tinha certeza de que a minha mãe ia adorar quando voltasse da estação e ouvisse aquela mensagem. Quando a gente ainda morava no Brooklin, ela estava sempre preocupada, achando que eu era anti-social. Estava sempre dizendo:
- Suzinha, você é uma moça tão bonita... Não entendo por que nenhum rapaz telefona para você. Quem sabe se você não parecesse tão... bem, tão durona?... Que tal deixar a jaqueta de couro descansar um pouco?
Ela provavelmente morreria de alegria se estivesse no estacionamento depois das aulas e ouvisse o Adam quan¬do eu me aproximei do seu carro.
- Olha só, Cee, aqui está ela - disse ele, abrindo a porta do carona do seu carro, que era simplesmente um New Beetle, o novo fusca (acho que os pais do Adam não estavam propriamente passando necessidade). - Venha, Suze, você vai sentar bem aqui ao meu lado.
Através dos meus óculos escuros - como sempre, a bru¬ma da manhã já se dissipara, e agora, às três da tarde, o sol estava castigando do alto de um céu de um azul perfeito -eu vi a Cee Cee esparramada no banco de trás.
Hmm, é mesmo? - disse. - Mas a Cee Cee chegou pri¬meiro. Eu fico lá atrás mesmo. Não dou a mínima.
Não quero nem saber - cortou o Adam, segurando a porta aberta para mim. - Você é que é a garota nova. A garo¬ta nova sempre senta no banco da frente.
Isso mesmo, até se recusar a dormir com ele - soltou a Cee Cee lá do fundo do banco de trás. - Aí também será relegada ao banco de trás.
Adam retrucou com voz cavernosa:
- Finja que não está ouvindo esta voz das profundezas. Eu sentei no banco da frente e Adam educadamente fe¬chou a porta para mim.
- Está falando sério? - perguntei a Cee Cee, virando-me para trás enquanto o Adam dava a volta no carro para entrar.
Cee Cee piscou por trás de suas lentes protetoras:
- Você acha realmente que alguém seria capaz de dormir com ele?
Tratei de processar a resposta.
Quer dizer então que a resposta é não - disse.
Acertou na mosca - respondeu a Cee Cee no exato mo¬mento em que o Adam entrava no carro.
Muito bem - disse o motorista, aquecendo os dedos antes de ligar a ignição. - Acho que essa história toda com a estátua, o padre Dom e o Bryce deixou todo mundo muito estressado. Meus pais têm uma jacuzzi, o que é perfeito para a tensão que todos nós sofremos hoje, e sugiro então que a gente passe primeiro lá em casa para um bom banho...
Sabe o que mais? - disse eu. - Vamos deixar a jacuzzi para outra vez e ir direto para o hospital. Talvez depois, se der tempo...
Uau! - fez o Adam, parecendo que estava nas nuvens. - Existe um deus lá no céu!
Lá do banco de trás, a Cee Cee cortou a animação dele:
- Ela disse talvez, seu otário. Minha nossa, tente se controlar.
Adam me deu uma olhada enquanto ia saindo da vaga:
Estou forçando a barra?
Hmm - disse eu. - Talvez...
O problema é que há muito tempo não aparecia uma garota nem de longe interessante por aqui. - Enquanto o Adam dizia isto, eu constatava algo aliviada que ele dirigia com muito cuidado. - Há dezesseis anos eu estou cercado de Kellys e Debbies. É um enorme alívio ter uma Suzannah Simon por perto para variar. Você simplesmente acabou com a Kelly hoje de manhã quando disse que anjos não deixam marcas de sangue.
Adam continuou com seu discurso até o hospital. Eu não entendia como a Cee Cee era capaz de agüentar aquilo. A menos que eu estivesse muito enganada, ela sentia por ele exatamente o mesmo que ele sentia por mim. Só que eu não achava que o interesse dele por mim era muito sério, pois se fosse ele não estaria brincando com o assunto. Já o interesse da Cee Cee por ele me parecia ser verdadeiro. Claro que ela o provocava e até o insultava, mas eu tinha olha¬do pelo espelho retrovisor umas duas vezes e vi que ela esta¬va olhando para ele de um jeito que só podia ser conside¬rado apatetado.
Mas só quando ela sabia que ele não estava olhando.
Quando o Adam parou em frente ao hospital de Carmel, eu pensei que ele tinha parado num clube ou numa casa particular por engano. Claro que seria uma casa daquelas muito grandes mesmo, mas lá na Califórnia não seria as¬sim nada de mais...
Foi então que eu vi uma discreta plaqueta com a inscri¬ção "Hospital". Saímos do carro e atravessamos um jardim impecável, com canteiros cheios de flores brotando. O lugar estava cheio de beija-flores e eu voltei a ver algumas daque¬las palmeiras que nunca esperara ver tão ao norte do Equador.
No balcão de informações, perguntei pelo quarto de Bryce Martinson. Eu não tinha certeza de que ele havia dado en¬trada, mas sabia por experiência própria, infelizmente, que, em caso de acidente com ferimentos de cabeça, geralmente a pessoa passa a noite no hospital para observação. E esta¬va certa. Bryce estava lá, assim como o padre Dominic, em quartos bem em frente um do outro.
Nós não éramos os únicos a estar visitando os dois, nem de longe. O quarto do Bryce estava cheio. Aparentemente não havia limite para o número de pessoas autorizadas a entrar num quarto de paciente, e parecia até que quase toda a classe dos veteranos da Academia Missionária Junipero Serra estava ali no quarto do Bryce. Bem no meio daquele quarto ensolarado e alegre, com flores por todo lado, o Bryce estava deitado com o ombro engessado e o braço direito pendurado acima da cabeça. Estava com aparência muito melhor do que de manhã, principalmente, suponho, porque o haviam enchido de analgésicos. Quando me viu na por¬ta, ele abriu aquele sorriso largo e disse, prolongando bem as sílabas:
Suze!
Puxa, e aí, Bryce? - disse eu, encabulada. Todo mundo tinha se voltado para ver com quem ele estava falando. Quase só havia garotas ali. E todas fizeram o que tantas garotas costumam fazer: me filmaram da cabeça aos pés (eu nem tinha tomado banho ao acordar porque estava tão atrasada, de modo que não estava exatamente com o cabelo em seus melhores dias...).
E todas deram aquele sorrisinho afetado.
Não de um jeito que o Bryce tivesse notado. Mas deram.
Mas ainda que não desse a menor bola para o que pudesse estar pensando de mim um bando de garotas que nunca tinha encontrado e provavelmente nunca voltaria a encon¬trar, eu fiquei vermelha.
Pessoal - disse o Bryce, parecendo meio alto, mas de um jeito simpático. - Esta é a Suze. Suze, é o meu pessoal.
Ah - respondi. - Tudo bom?
Uma das garotas, que estava sentada na beira da cama do Bryce num vestido de linho branco muito engomadinho, foi dizendo:
Ah, você é a garota que salvou a vida dele ontem. A meia-irmã do Jake.
Isso aí, eu mesma - disse. Não havia a menor, mas a menor possibilidade de que eu conseguisse perguntar ao Bryce o que precisava perguntar-lhe com todas aquelas pes¬soas ali no quarto. Cee Cee tinha empurrado o Adam para o quarto do padre Dom, para que eu pudesse ficar um pouco sozinha com o Bryce, mas parecia que não tinha adiantado nada. Não havia a menor possibilidade de eu conseguir ficar um minuto sozinha com o cara. A menos que...
A menos que eu pedisse.
- Bom - fui dizendo. - Preciso falar com o Bryce um instantinho. Será que vocês se importam?
A garota que estava na beira da cama foi apanhada de surpresa.
- Pode falar. Não somos nós que vamos impedir.
Eu a olhei bem nos olhos e disse, com minha voz mais firme de mediadora:
- Preciso falar com ele sozinha.
Alguém deu um assobio longo e profundo. Ninguém se mexeu. Até que o Bryce falou:
- Olha aí, rapaziada. Vocês ouviram o que ela disse. Po¬dem ir saindo.
Deus abençoe a morfina, é tudo que posso dizer.
A classe dos veteranos foi então saindo de má vontade, todo mundo me lançando olhares fulminantes. Bryce er¬gueu uma das mãos, que estava presa a alguma coisa, e disse:
- Vem cá, Suze. Dá uma olhada só nisso.
Eu me aproximei da cama. Agora que estávamos sozi¬nhos, dava para ver que o Bryce conseguira um quarto bem grande. Era também muito alegre, pintado de amarelo, com a janela dando para o jardim.
- Viu só o que eu consegui? - perguntou Bryce, mostrando-me um pequeno aparelho que cabia na palma da mão, com um botão no alto. - Uma bomba de analgésico só para mim. A qualquer momento que eu sentir dor, basta aper¬tar este botão e ela libera codeína direto no meu sangue. Legal, não?
O cara estava em outra. Estava mais que evidente. De re¬pente, eu me dei conta de que minha missão não seria as¬sim tão difícil, no fim das contas.
- Beleza, Bryce - respondi. - Fiquei mesmo muito chatea¬da quando soube do seu acidente.
Uau! - fez ele, com um risinho de satisfação. - Pena que você não estava lá. Talvez pudesse ter me salvado como da outra vez.
É - disse eu, pigarreando meio sem jeito. - Você parece que está atraindo acidentes ultimamente...
É mesmo - respondeu ele, fechando os olhos e deixando-me em pânico ante a idéia de que estivesse adorme¬cendo. Mas logo depois abriu os olhos e me olhou com ar meio triste. - Suze, acho que não vou conseguir, não.
Eu fiquei olhando para ele. Caramba, que bebezão!
- Claro que vai. Você só está com a clavícula quebrada, mais nada. Não demora nada e vai estar bom.
Ele deu um risinho:
Não, não... Estou dizendo que acho que não vou con¬seguir ir ao nosso encontro de sábado à noite.
Ah!... - disse eu, piscando. - Claro, claro que não. Nem eu estava mais pensando nisso. Preciso te pedir um favor, Bryce. Talvez você ache estranho... (na verdade, dopado do jeito que estava, duvido que achasse estranho) mas eu es¬tava aqui me perguntando se, quando você e a Heather ain¬ da namoravam, ela não... nunca lhe deu nada?
Ele ficou piscando para mim meio desorientado.
Nunca me deu nada? Você quer dizer um presente? - Sim.
Claro. Ela me deu um suéter de caxemira no Natal. Eu fiz que sim com a cabeça. Um suéter de caxemira não ia adiantar nada para mim.
-Tudo bem. Mais alguma coisa? Talvez... um retrato dela?
Ah, sim! - respondeu ele. - Claro, claro. Ela me deu seu retrato no colégio.
É mesmo? - fiz eu, tentando não parecer muito excitada. - E por acaso você está com ele aqui? Na sua carteira, talvez?
Era uma aposta arriscada, eu sabia perfeitamente, mas muitas pessoas só arrumam suas carteiras uma vez por ano, se tanto...
Ele fez uma careta. Provavelmente pensar era doloroso para ele, pois logo em seguida tratou de injetar o analgési¬co umas duas vezes. Em seguida, ficou com a expressão re¬laxada.
- Claro - disse então. - Ainda tenho a foto dela. Minha carteira está naquela gaveta ali.
Eu abri a gaveta da mesa ao lado de sua cama. E lá esta¬va realmente a carteira, fininha, de couro preto. Eu a apanhei e a abri. A foto da Heather estava entre um cartão American Express e um bilhete de teleférico de estação de esqui. Ela estava cheia de glamour, com toda aquela cabeleira loura caindo num dos ombros e olhando insinuante para a câ¬mera. Nas minhas fotos de colégio, eu sempre fico parecen¬do como se alguém tivesse gritado "Fogo!". Não conseguia entender como um cara que estava saindo com uma garo¬ta como aquela podia convidar para sair alguém como eu.
- Você me empresta este retrato? - perguntei. - Preciso dele só por um tempinho. Devolvo logo. - O que era uma mentira, mas achei que de outro modo ele não me empres¬taria a foto.
Claro, claro - disse ele, sacudindo uma das mãos.
Obrigada.
Enfiei a foto na minha mochila no exato momento em que uma mulher alta, de seus 40 anos, foi entrando, cober¬ta de jóias e trazendo uma caixa de doces.
Bryce, querido - disse ela. - Onde estão seus amiguinhos? Eu fui até a padaria para trazer uns beliscos.
Daqui a pouco eles voltam, mãe - respondeu o Bryce meio sonolento. - Esta é a Suze. Ela salvou a minha vida ontem.
A Sra. Martinson estendeu a mão direita, macia e bron¬zeada.
- Prazer em conhecê-la, Susan - disse ela, mal tocando os meus dedos. - Você consegue acreditar no que aconteceu com o pobrezinho do Bryce? O pai dele está furioso. Como se as coisas já não estivessem suficientemente com¬plicadas, com aquela maldita garota... bem, você sabe. E agora isto. Juro que fica parecendo que aquele colégio está amaldiçoado ou algo assim.
Eu disse:
- É. Bem, prazer em conhecê-la. É melhor eu ir.
E ninguém protestou contra minha partida: a Sra. Martin¬son porque pouco estava ligando, e o Bryce porque tinha adormecido.
Encontrei Adam e Cee Cee em frente a um quarto do outro lado do corredor. Enquanto eu estava me aproximan¬do deles, Cee Cee levou um dedo aos lábios:
- Ouça - disse ela.
Eu fiz exatamente o que ela sugeria.
Simplesmente não podia ter acontecido em pior hora - dizia uma voz conhecida, de homem mais velho. - E ago¬ra que faltam menos de duas semanas para a visita do arce¬bispo?...
Sinto muito, Constantine - dizia o padre Dominic com a voz fraca. - Sei perfeitamente que isto deve estar sendo estressante para você.
E ainda por cima com o Bryce Martinson! Sabe quem é o pai dele? Simplesmente um dos melhores advogados de Salinas!
Padre Dom está levando um sabão - sussurrou o Adam para mim. - Pobre coitado.
Ele bem que podia simplesmente dizer a monsenhor Constantine que fosse se afogar no lago - disse Cee Cee com os olhos faiscando.
Eu sussurrei:
- Vamos ver se a gente consegue ajudá-lo. Talvez vocês pudessem distrair o monsenhor. E aí eu vou ver se o padre Dom precisa de alguma coisa. Sabe como é, Bem depressinha antes da gente ir embora.
Cee Cee deu de ombros:
Por mim tudo bem.
Estou nessa - concordou Adam.
Eu então chamei o padre Dominic em voz alta e fui en¬trando no quarto.
O quarto não era tão grande nem tão alegre quanto o do Bryce. As paredes eram bege, e não amarelo, e só havia um vaso de flores. Pelo que pude perceber, a janela dava para o estacionamento. E ninguém se tinha dado ao traba¬lho de pendurar o padre Dominic em alguma máquina de bombear analgésicos. Não sei que tipo de plano de saúde os padres têm, mas posso dizer que não eram tão bons quanto deveriam.
Seria pouco dizer que o padre Dominic ficou surpreso com a minha entrada. Seu queixo simplesmente caiu. Ele não parecia capaz de dizer coisa nenhuma. Mas não tinha problema, pois atrás de mim foi entrando a Cee Cee, que foi explicando:
- Puxa, monsenhor, estávamos procurando o senhor em toda parte. Gostaríamos de fazer uma entrevista exclusiva, se o senhor concordar, sobre as conseqüências do ato de vandalismo da noite passada na visita que o arcebispo está para fazer. Conseqüências negativas, certo? O senhor tem algo a dizer? Talvez o senhor pudesse dar uma chegadinha até o corredor, onde eu e meu colaborador poderemos...
Meio atarantado, monsenhor Constantine acompanhou Cee Cee até a porta, bem irritado:
- Escute aqui, mocinha...
Eu mais que depressa fui chegando para o lado do padre Dominic. Não posso dizer que estava exatamente excitada por encontrá-lo. Quer dizer, eu sabia que ele provavelmente não estava lá muito satisfeito comigo. Foi em mim que a Heather atirou a cabeça do padre Serra, e eu achava que ele provavelmente sabia disto e muito provavelmente também não estava lá simpatizando demais comigo.
Pelo menos era o que eu estava pensando. Mas é claro que estava errada. Eu sou muito boa para ficar imaginan¬do o que as pessoas mortas estão pensando, mas ainda não consegui acertar muito com os vivos.
- Suzannah - disse padre Dominic com sua voz meiga.
- Que está fazendo aqui? Está tudo bem? Eu estava muito preocupado com você...
Provavelmente eu deveria ter esperado... Padre Dominic não estava zangado comigo, absolutamente. Só estava preo¬cupado. Mas era ele o verdadeiro motivo de preocupação. Além daquele horrível rasgão acima de um dos olhos, ele estava completamente lívido. Ou melhor, cinzento, pare¬cendo muito mais velho do que era. Só os olhos, azuis como o céu lá fora, continuavam como sempre foram, brilhantes e cheios de bom humor inteligente.
Ainda assim, fiquei de novo furiosa por vê-lo daquela ma¬neira. Heather ainda não sabia, mas ia se ver comigo, e como!
- Preocupado comigo? - perguntei, olhando fixo para ele. - Por que está preocupado comigo? Não fui eu que quase fui esmagada hoje de manhã por um crucifixo.
Padre Dom sorriu, matreiro.
Não, mas acho que você talvez precise explicar uma coisa. Por que não me disse, Suzannah? Por que não me disse o que pretendia fazer? Se eu soubesse que você estava pretendendo aparecer na Missão sozinha no meio da noite, nunca teria permitido.
Foi exatamente por isto que eu não lhe disse - respondi.
- Ouça, padre, sinto muito pela estátua e pela porta da sala de aula do professor Walden e tudo mais. Mas eu precisa¬va tentar falar com ela pessoalmente, entende? De mulher para mulher. Eu não sabia que ela ia ficar completamente ensandecida comigo.
Mas o que você podia esperar? Suzannah, você não viu o que ela tentou fazer com aquele rapaz ontem?...
Sim, mas aquilo dava para entender. Quer dizer, ela gostava muito dele. Ela realmente o ama loucamente. Mas eu não imaginava que fosse me perseguir também. Afinal, eu não tinha nada a ver com aquela história. Só estava tentando mostrar a ela o que ela podia fazer...
O que era exatamente o que eu vinha fazendo desde que ela começou a assombrar a Missão.
Certo. Mas a Heather não está a fim de aceitar nada que lhe propomos. É como estou lhe dizendo, a guria pirou. Agora está quietinha porque acha que conseguiu matar o Bryce e provavelmente também está exausta, mas daqui a pouco vai começar a atacar de novo, e só Deus sabe o que poderá fazer agora que sabe do que é capaz.
Padre Dominic ficou me olhando com curiosidade, com¬pletamente esquecido da sua preocupação com a chegada do arcebispo.
Como assim, "agora que sabe do que é capaz"?
Bom, dá para perceber que a noite passada foi apenas um ensaio geral. Pode estar certo de que muito pior virá da Heather, agora que ela sabe o que pode fazer.
Padre Dominic balançou a cabeça, confuso.
- Você a viu hoje? Como sabe tudo isto?
Eu não podia falar sobre o Jesse para o padre Dominic. Não podia mesmo. Não era da conta dele, para começo de conversa. Mas eu também tinha a impressão de que pode¬ria chocá-lo, saber que havia um sujeito vivendo no meu quarto. Sabe como é, padre Dom era um padre, essas coisas...
- Escute só - eu disse. - Tenho pensado muito nisso, e não vejo outra maneira. O senhor já tentou argumentar com ela e eu também. E veja só no que deu. O senhor está no hospital e eu preciso ficar o tempo todo olhando ao meu redor, onde quer que vá. Acho que chegou a hora de resol¬ver isto de uma vez por todas.
Padre Dom piscou: - O que está querendo dizer, Suzannah? De que está falando?
Respirei fundo.
- Estou falando do que nós, mediadores, fazemos como último recurso.
Ele ainda parecia confuso.
Último recurso? Acho que não estou entendendo o que você quer dizer...
Fazer um exorcismo - disse eu.
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